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quinta-feira, 28 de março de 2013

Fumo e Desejos

 Amazonas fica perto. No silêncio, com os deuses da floresta, na perpétua intriga de uma conquista insana. Olhos, dentes, gestos, acumulam em momentos de apuros. Raia à floresta no mórbido desconhecido, só de pensar nas minhas ilhas desérticas, na imensidão do azul, fico mais tenso, ainda. Amazonas, no manto verde, faz-me lembrar filmes de ação, feitos de mercenários que recebe prémios por cabeças roladas. De não perceber o que está a nossa frente; matas ou morte... Mas Amazonas criou civilização brasileira, no entanto longe de postais e de narrativas quotidianas. Se Amazonas reivindicasse os recursos, oxigénio, madeiras, venenos para fins medicinais, só para dizer esses, estaria tudo no vazio de um condado que não pensou no potentado. 
No entretanto entretenho-me com o meu cigarro imaginário. Fumo para o vazio que voga para o manancial de sonhos e de uma perpetua busca. Arre! Quero ir para Amazonas. Conhecer nos seus ângulos sem pretensão de um antropólogo do imperialismo. Os tais que alicerçaram imaginários com mentiras e simulações feito de moral socrático. Por falar de Sócrates, parece que ele é o mais português de todos os portugueses. Defendeu a sua narrativa e calou meio mundo. Será? Juan Carlos português  imaginário até poderia dizer: porque não te callas!



sexta-feira, 22 de março de 2013

Devaneio de troça


Tenho uma relação forte com o Porto e Sporting de Cabo Verde. São as minhas equipas preferidas. No entanto quando o Sporting da Praia perdia com o Mindelense de São Vicente, ficava quieto e fulo. Não, porque não gostava do Mindelense, é que pensava que era o Benfica a jogar. Sim, Benfica vestido de vermelho, tipo o movimento de chavismo da Venezuela. Um vermelho revolucionário muito pegado a memória. Fico triste por milhões de pessoas que gostam do Benfica. Gostar do Benfica é um sacrifício terrível. Tipo viver de recordação ou de uma revolução para o restabelecimento do status quo. Este ano, o Benfica vai ter o seu ano de glória. Se não ganhar é melhor incinerar o simbolismo e reinventar-se com novas cores. Cinzenta como as nuvens de tempestade. 
Mindelense devia apoiar-se em bons exemplos; o Porto por exemplo que ganha, alimenta e cumpre expectativa de milhões de almas. Sporting da Praia? Isto já foi no passado. Que tal resgatar o simbolismo de tartaruga e endossar ao Sporting de Portugal. Sim aquilo está berras e berras...

quinta-feira, 14 de março de 2013

Muros silenciados


Neste momento perto da minha ex-Faculdade, Faculdade de Letras da UP, estão a silenciar os muros com águas e tintas. As frases da ordem estão a ser apagadas. O mais incrível é que, apesar de silenciarem os muros, os sentimentos das pessoas, os sofrimentos geo-referenciados nos corpos, jamais conseguirão apagar. As coisas estão pretas por esses lados. A abundância do capitalismo frenético deixou um buraco enorme de escassez e de sofrimentos de sonhos perdidos. As pessoas estão a sofrer muito e não há ciência que suavize esta crise de má memória. 
Os suicídios aumentam todos os dias, os bastões das finanças já perderam a humanidade, tudo na lógica de salve quem puder. As ruas, quando não existe ajuntamento protestante, segue a sua desenvoltura no vazio; os espaços públicos perderam as almas. De vivalmas só se notam berros de inquietações nos muros das cidades, agora em processos de silenciamento. 
As pessoas de outras margens que se cuidem. Sei que muitos cabo-verdianos querem aventurar-se neste pântano sem humanidade. O acordo para mobilidade é uma falsa questão. O time não é o melhor e não se conjectura momentos para a suavização do processo. O mercado de trabalho está em crise, a precariedade suga as almas nas desventuras de quem não tem como comer. Neste momento minha gente, é melhor ouvir os sons de boca bedju em Cabo Verde do que vir para aqui sofrer os bastões, a intolerância e o desprezo dos seres humanos. Os cidadãos estão a sofrer no silêncio. Inclusive muitos morrem no silêncio dos prédios sem alma subtraidos de medicamentos e de cuidados de assistência social. Os doentes oncológicos estão no desespero. Os gritos são globais, transversais que cruzam as estradas da vida da cidade perdida. 
A vida rural está na moda. Reinventam-se as tradições, as terras que os senhores da Europa endossava com migalhas para não produzirem, a agricultura que já se torna na nova cultura de salvação. Enfim, este mundo, como dizia Kim di Santiago, "Pa torci" porque assim não dá.   

quinta-feira, 7 de março de 2013

Tributo à Malaquias


Imaginariamente na noite do Mindelo fiquei extasiado com o violino de Malaquias. Acordes frenéticos voam, deambulando em traços harmónicos, para as casas das senhoras das ilhas. Ouvi dizer que o Malaquias era uma alma atrevida. Conquistador de meninas novas. Trovador de fazer inveja aos homens migrantes que na torna terra conquistam as mulheres. O Malaquias precisava, no pedestal do talento, de audiências de vários mundos que no Mindelo-Blues procuram o melhor de uma sociedade cosmopolita.
RIP Malaquias. Malaquias viveu intensamente com o seu talento e a sua humanidade. 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Canto do vento no intervalo da chuva


Neste momento, o vento toma conta do palco. Cantos sinfónico ocupa audiência da população portuense. Eu gosto de uma boa música mas esta confusão de canto com o uivar de lobo não favorece à educação de ouvidos. Se dependesse do patrão natureza à incumbência de uma política cultural para formar gosto pela música clássica, estamos todos tramados. Já pensei em comparar este silvo com a tentativa desdentada do pastor sem rebanho; assobia pruuuuu... qual espanto da familia caprina e ovelha. 
Definitivamente: prefiro uma boa chuva a este canto sem encanto que homenageia o Hugo Chavez. Chavez merecia melhor canto qual a homenagem do computador magalhães que ajudou a vulgarizar nas terras das américas. O entendido da questão disse que Socrates fez um negócio da China com o magalhães. O Chavez, desentendido com os TIC e extasiado com o charme moralista socrático, caiu na «intentação». Socrates é «intentado» propi! E o nosso Zé Maria ainda não deu conta que o brinquedo não é brinquedo, não; fura o bolso e ensina muito mal qual os erros do coiso.  

sábado, 2 de março de 2013

Yuppie selvagem


Não sei para onde vamos parar e não há remédio para sanar a ferida pública que é o uso e abuso dos bens da República. Tudo porque o sistema montado protege os yuppies, oferecendo-lhes prendas e mimos como forma de catalisar o tal elixir da juventude dos mais velhos da lida partidária. As leis não são cumpridas. Se houver quaisquer movimentações que visam o contra-golpe nos vícios do sistema, é porque as forças externas impuseram tais condições. Quem não se lembra do já famoso caso da «lancha voadora»... A iniciativa só foi materializada porque a Holanda assim o quis. Se dependesse dos nossos, viveríamos eternamente na imoralidade de conviver com os bandidos protegidos pelo sistema  e vangloriados pela nossa dita sociedade civil (tal coisa que não existe). 
Nas 100 (lê-se sem medidas) nada se viu. Pelo contrário, as facturas foram todos para a sofrida população. Enquanto uns vivem sem apertos orçamentais, outros maquinam estratégias de elasticidade para ver se chegam com uns troquitos para o final do mês. Os carros do Estado já foram assaltados pelos yuppies estatal; viagens, rodagens na Praia City com mão fora e sorriso hipócrita para os desvalidos da sorte. O papa protege, o tal sistema sistemática de teorias ocas, de alcance zero. 
Muitos dirão: se fosses tu farias a mesma coisa. A minha resposta é não. Porque sei do sofrimento geo-referenciados nos corpos e nas memórias, das atrocidades, de sacrifícios que os mais velhos fizeram para construir o País. 
Definitivamente, o precisamos de uma sociedade que valorize a propriedade pública e que saiba valorizar os esforços individuais. A privatização, abertura ao mercado, a flexibilidade laboral, etc., constituem desafios que temos pela frente. Precisamos converter os yuppies estatal em yuppies privado. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Cabo Verde e a União Europeia; as coisas escondidas


No mar, quando as sombras da vida cruzam sonhos de eldorado e calvário, alimenta questionamento nem sempre fácil de apreensão. Na luz do dia, as coisas aparecem cristalinas vezes dúbias quando se snifam mentiras e imposições do poder. Nos jogos do poder nem sempre as relações de forças são tidas em conta; os mais fracos como que aceitam tudo porque não tem margem de escolha. O turismo é como se sabe, grupos económicos é que mandam; nas pescas é o tiro nas barbatanas dos tubarões; a infraestrutura, estradas de barro enriqueceu o José Socrates de Portugal, fugido e curtindo na belezura  palaciana de Paris, enquanto o povo implode com forquilha e orações.
Agora, temos um hipotético acordo de facilitação de vistos e de readmissão dos repatriados (quando se faz prova) para Cabo Verde. O prenunciado acordo já fez e faz escola em Cabo Verde. Muitos ficaram contente, admitindo que talvez fizéssemos parte da União Europeia que a propaganda ajudou a consolidar. Bandeiras de sonhos e confrontações que os actuais claridorosos ajudaram a propagar como cartilha de conquista quinquenária ou do milénio. Na prática nada de concreto se mostrou, nem um rasgo de mudanças para a satisfação da nossa população. Na política tudo vale mesmo sabendo das dificuldades nas concretizações.
A União Europeia, nesta conjuntura, não oferece e nem favorece grande coisas. Os seus Estados membros são cada vez mais restritivos no que respeita as suas políticas de migração. O mercado de trabalho está em crise profunda. E o rasgo de oportunidades que existe, exige qualificações importantes que os nossos imigrantes não estão tabelados; o conhecimento de novas tecnologias constituem exigências maiores.
Quem sabe futuramente, num arco de tempo mais alargado, com uma planificação inteligente para tirarmos partido dos nossos emigrantes. Exigiria mudanças de atitudes dos nossos emigrantes e governo. Qualificarmos para conquistar outros patamares que historicamente nos estavam vedados. ler mais  aqui

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Camelo da discórdia


Que Kadhafi era xuxanti ninguém duvida. Com a sua cara, de sorriso escondido, sempre me apaixonou sobre a incógnita do homem que oferecia pãos aos seus e os reprimia com rajadas de kalashinikov. Ele porventura é o aventureiro que brinca com simbolismo que eclipsa os mais desatentos. Em Cabo Verde mostrou interesse em empresas rentáveis, apostaria na banca e outras infraestruturas; à Guiné Bissau oferecera um camelo que foi gentilmente aceite como sinal de amizade da irmandade muçulmana. Agora volvido dois anos da sua morte e um ano do golpe de estado na Guiné Bissau, eis que o animal, supostamente de barriga vazia ou imaculado(a) com a alma do dito cujo, resolve fazer das suas numa das  comunidades desse País. Sem palha, o animal enfurece; nem a alma da paz consegue aguentar as investidas da santa aventura do espírito desértico. Para continuar a ler sobre esta noticia, por favor deliciem-se com mais uma partida de Kadhafi em Africa. Ler mais  no Portal Asemana .

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O fim de uma jornada. Uma jornada com continuidade

Fabio Art&Techonoligy

A participação de Cabo Verde no CAN foi coroada de sucessos. Sem passar para meias finais, o grupo cabo-verdiano deu mostras de querer e de movimentações fora de normal da nossa vivência colectiva. Aparte da política, que nos períodos de campanha movimenta milhares de money, a participação do footbol cabo-verdiano não precisou de money, aliás esse subtrai-se pela emoção granjeada na nossa psicologia colectiva muito sonegada ultimamente. 
Estou muito orgulhoso pelas correntes correntes positivas, vezes invisíveis e outros, simbolicamente representada nos nossos símbolos. Construções simbólicas que fazem inveja aos poderosos deste planeta terra, tubarões pós-moderno que roça incursões holiwoodescas com toques e retoques artísticos que embala qualquer alma. O "tubarão é mau" tornou-se num bicho manso, alegre, acolhedor que ama transversalmente etnias, credos e valores mundiais.  
Só peço continuidade. Nós precisamos construir todos os dias energias positivas. Bons exemplos, como esses, precisam ser cultivados e salvaguardados. Como sabemos qualquer tentativa de resfriamento da emoção ou da criatividade faz com que as coisas percam a chama e o brilho. Ainda temos muitos desafios pela frente. E as palavras bonitas que já ouvi do Governo não pode morrer oca. Refiro-me a industria criativa. Acho que já começou na net. Notaram? É isso aí. Os criativos em acção. 
Obrigado Rapazes. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Mar-blues: sodade, oh mar, oh gente…



No vulcão cozem os prazeres. A bandeira é tirada para cobrir a boca do vulcão para ninguém testemunhar a cozedura dos corpos. O cavaleiro leva a haste para servir de estrutura do foguete. Sulca montanhas e vales, navega pelas nuvens, proclamando a festa; gritos alegres encontram ouvidos em vários acasos da ilha. Pequenos montes e montanhas convivem aos sons dos pássaros que por lá aportam, sempre sob olhar vigilante do vulcão, o portão identitário. As estrelas cruzam o céu, mergulham nas nuvens timidamente; a lua sopra com lábios carnudos para o queixo do Minó di Mama. Que convencido a alma, vaidoso que ganha coragem com o violino, inventam gestos e gestas de cortês para o alvoroço das senhoras. A Miloca está quieta. Os seus olhos brilham na vertente da lua que o Minduca recolhe com desejo.
A bandeirona também é vagabunda. Deambula pelas ruas numa performance contagiante; os textos, os atores e o público harmonizam-se em verve colectiva numa harmonização horizontal. Todos são convocados. Todos proclamados senhores da festa. Todos transportam e transpiram energia. No rufar do tambor, no toque-toque do pilão e na dança-dança geométrica das senhoras. O Osvaldo manco, quedo no seu canto, faz de sofista qual sofisma! Qual etiquetas, qual quê! O homem canta e encanta; faz comício para as gargalhadas dos presentes. De bokarum, canizadi é só amizade. O vulcão é a música; é o público; é o texto.  Na ilha do Fogo, o tempo está colorido; tons vermelhos, verdes, azuis, de berrantes até cega as almas. Os convivas calcorreiam os espaços, de transeuntes anónimos de sorrisos abertos. Os carros voam com baterias de sons, descem do sopé do vulcão.
Enquanto isso, na greta do mar, os barcos sulcam o oceano. Balanceiam ansiosos para novas paragens. No sotavento, o vento é amarrado no lençol. Ventos acumulados e trabalhados para fazerem de batuques e tambores na ilha de Santiago.
Olha Santiago bem perto, de peito largo no seu cavalo. Bate com brio no cavalo e varre o tempo com prenúncios de bem-vindos. Badias tagarelam no pelourinho, de bocas aguçadas cospem paleio; «freguês, não queres nada», «produto barato e de qualidade». A classe média, nacionais e turistas, declina o convite; a moldura do corpo padronizado reprime qualquer diálogo social. (continua) 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Mar-blues: sodade, oh mar, oh gente…



I.             
O mar, para além de ser uma tela gigante, aporta memórias de outros tempos, lugares e sonhos. Traz ainda o sopro sinfónico que atravessa às ancas do tempo, na salutar festa de São João de moças de «rabolas» incandescentes na rosca-rosca com os rapazes da terra. Brios soltos no palavreado regional, no encontrão de sexos na peleja do refeitório pagã. Gestos sortidos e curtidos entram em transe. Mocinhos e mocinhas, de Santo Antão e São Vicente, recriam a tragédia na orgia, no caos de guerra fria. Os corpos se trançam; fermentam-se no pousio do desejo. Os ritmos frenéticos se intensificam em cada rufar do tambor. Trata-se de ritos de passagem. Os corpos disciplinados se indisciplina, quebra a rotina do dia-a-dia. As enxadas encontram a paz nesse dia, já não fere o chão. A brisa do mar sopra de mansinho para as ilhas; esfria os corpos e cristaliza os desejos. A carne é exorcizada com a mudança do tempo. A festa dá lugar ao trabalho. Aos afazeres domésticos. Os desejos da carne são mais secretos. Os corpos dos desejos voam para as suas casas, lugarejos da sua santidade. O sopro do mar, na contra corrente, cruza para outras ilhas. Vai ao Fogo para apagar o vulcão.
A bandeirona também exorciza os maus ares no rufar de tambor. No cotejar sincopados de sons fatigantes, de corpos curvos e trémulos que o grogue fermenta. A brisa do mar traz brio no corpo das ilhas. As várias almas do tempo, no compasso de um caminhar caótico, seguem em transe para vários vales, cutelos e cidades da ilha. O tempo metamorfosea a vida. Sacrifícios dos animais que choram a sua morte, de olhos arregalados que gotejam berros. Facas de golpes e em contragolpes, de corpos caídos no palanque da festa. Os caldeirões fumegantes e cantantes dão azia aos convivas, enquanto esses cheiram e snifam a morfina da fome. Na ilha do Fogo, a romaria começa ordenada com antecedência. Os patronos conspiram os desejos e consumos; arranjam a urbe para o carnaval fora do tempo. Líquidos brotam do vulcão, sacodem as almas no canavial de São Filipe. No sopé do vulcão faz-se os primeiros acordes para uma nova largada. O sentido é cruzar vários pontos das ilhas no salutar momento harmónico de convívios. A bandeira é desenterrada para vencer o céu. Bradar ao céu para dialogar com o sol e a lua. A lua «noba» de corpos de desejos que se hospedam no vulcão. (continua). 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

No diário: recado pa terra



O tempo é o tempo. O senhor de todos os saberes. Quem mata o tempo, fracassa em cada pegada do seu pedestal. O tempo é a nave; a nave imaginária que cabe todo o mundo e modos. No silêncio, a história se faz. Na cambalhota de trilhos trocados, de sonhos fermentados, de crenças e descrenças num deus maior. O tempo é deus.
No arquipélago onde nasci é como um museu imaginário. Cada ilha tem o seu quadro. Quadros policromos, outros monocromos, pintados de sanguinários pinceis, e de implacáveis bastões.
Santiago é a ilha do museu onde há bastões e pinceis sanguinários. Nos bairros as relações de forças estão distorcidas. A força central está cada vez mais frágil. Apesar de aumento nas fileiras policiais, os bandidos estão cada vez mais perigosos. Institucionalizam-se com indumentárias, palavreados e acções destrutivas da paz social. Tudo no barulho do dia e no calor da noite, na barba cara das autoridades. Complacência? Será o prenúncio do fim do Estado? A anarquia geral nas nossas urbes. O equilíbrio social é feito de relações de forças contrárias. Na física, a relação de forças de sinal contrário dá zero. É o dito equilíbrio, o grau zero da completude. Da paz social. Na sociedade cabo-verdiana temos relações de forças desencontradas. Algumas constituem inércias de contracorrente e contrachoque. A sociedade civil, por exemplo… A família perdeu a cartilha, a igreja já perdeu a bíblia e o sistema político perdeu a Constituição. Os bandidos assaltaram a paciência e a bondade da nossa gente. O sistema anda a drogar a nossa gente. Não tenho muita fé no sistema político das ilhas. Os senhores do sistema político para não perderem as mordomias tornam-se malandros. Recrutam nas fileiras, os desesperados, os carrascos sem almas. Esses carrascos fazem o servicinho de branqueamento, de assassinato de caracter, e de limpeza dos arquivos. As ilhas afortunadas andam a perder a fortuna da paz. Venderam almas ao fausto que por sua vez endossa ao diabo.
O povo tornou-se piranha. Nas paletas do pântano azul, destrói-se a fortuna e despreza a poupança. Dinheiro, gentilmente oferecido como Ajuda Pública ao Desenvolvimento, é desbaratado em coquetéis e orgias. Trocam tertúlias com pornografias colectivas, de salões de festas, e de voyeur facebookianas. Riolas nos cantos e perseguição aos seres pensantes; porque pensar atrapalha com disciplinas e detalhes da nossa história.  

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O tombo de um “deus” maior



O meu sonho era ser arquitecto. Sempre achei que projectar, inventar e reinventar coisas da vida real e do nosso imaginário seria a coisa mais fantástica do ser humano. Também os animais, os insectos também projectam, constroem e reinventam. O castor é o exemplo inacabado de um grande projectista e engenheiro da vida. Tenho por mim englobar as formigas, as abelhas, abelhão, e vários outros seres que povoam o nosso ambiente. É mais um milagre da natureza ver a lógica da criação. É coisa para dizer que não estamos sós no mundo. O que Oscar Niemeyer fez foi agregar todas essas valências e invocou o feiticeiro do tempo para lhe dar todo o poder criativo da natureza. Com os poderes instintivos ele acrescentou o factor cultural para transformar a paisagem natural, paisagem urbana, a etnopaisagem de vários mundos.
Eu me curvo perante figura como este. Sempre me curvo. Um “deus” maior é sempre um “deus” maior. Eu vi no seu tombo, os bichos, de amazonas fugirem para a floresta para conspirarem sobre um novo corpo criativo.
Ps. É ver: nos primórdios do Estado Cabo-verdiano ele projectou algo para Várzea. Infelizmente os rapazes eram covardes e não quiseram arriscar. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O pecado do filho filinto e filintinho



Tudo estava calmo. O silêncio invadiu os ouvidos de muita gente. Era o silêncio imposto perante a malfadada discussão orçamental. Corpos hirtos, cansados de tanto ouvir as imaginações, os truques de uma partida na peladinha, bocejando preguiças e contando o tempo que não passara. Era com o esgrimir de argumentos e contra argumentos que os energúmenos brindaram com manifestações intestinais brotando ruídos para a casa do povo. A fome apertara. De certeza que a barriguinha reclamara mais pastos e repastos para suster as investidas dos beligerantes de guerra fria.
O sol nas alturas, salvo as más vontades da natureza, brilhara com intensidade. As nuvens passearam numa romaria que deliciara os românticos da paz. Na Achada de Santo António dias antes os thugs da urbe proclamaram tréguas com bênção dos padres e pastores. A televisão pública esteve presente para testemunhar as passagens de “passas” de marijuana entre os contendores. Alegria geral com o apaziguamento da paz de espírito nas urbes. As armas ainda não foram entregues. As promessas de entendimento exigem prolongamento e extensões do tempo, sem relaxamento.
No Parlamento, as coisas seguiram com os mesmos arranjos. Todos sentados, bocejando e “bavardando” a la francaise. O Ministro da Energia interviera para explicar o estado das coisas. A energia Eléctrica que é a riqueza e orgulho da nação, qual economia criativa sem claridade nas alturas… o senhor, timidamente açoitado pelo mundo crioulo, de cabisbaixo, solto como grão-de-bico… abrira o bico para falar do pito. No preciso instante, a luz eclipsou, deixara meio mundo nas escuras. A chacota tomara conta da sala; o ministro titubeou e chorou desculpa que aprendera numa das universidades do verão; boicote no parlamento, boicote na cidade… boicote contra a minha pessoa. E o Luciano Pavaroti renascera da cova para cantar salute tute e boa garfada de farra.  

sábado, 24 de novembro de 2012

A política e o erótico



A sociedade cabo-verdiana é muito erotizada. A luta no campo político tem como objectivo não só a satisfação de uma lacuna estrutural, à satisfação material, mas também aos apetites libidinosos. Os detentores de cargos públicos usam essa estratégia como artefacto de aranha para atrair para as suas teia muitas mulheres. O mais incrível é que essa lógica tem vindo a se reproduzir aos olhos da sociedade civil, vezes apática, sem capacidade de travão.
A explicação para esse comportamento talvez tenha a explicação histórica. Numa visão de «arqueologia» da nossa história social, se quiserem de sociologia histórica, a situação de envolvimento sexual entre os detentores do poder e a classe menos favorecida sempre esteve presente. Foi assim com os senhores e as escravas, o mesmo comportamento se verificou no seio da religião. No período colonial, celebrado num contexto tradicional, inexistindo alguns elementos de suporte de igualdade, a violência sexual entre homem (masculinidade descondicionada) e a mulher era socioculturalmente aceito como normais.
No período pós-colonial, impulsionada pelos movimentos feministas e a conquista democrática, a masculinidade (com força condicionada) continua, a laborar na região sombra, à praticar violências sexuais sobre as mulheres. O favorecimento sexual para obtenção de um emprego e cargos mais elevados constitui uma problemática que deve ser combatida. Malgrado o discurso de equidade do género, esta constitui mais um protesto estético que pauta pela visibilidade do que uma luta mais eficiente. A violência baseada no género, por ser uma realidade multidimensional, deve ser tratada e problematizada como tal.
A visibilidade dada à violência física continua a ser um handicap para outras lutas igualmente importantes. A violência psicológica, a violência sexual de base negocial (para emprego), constituem dimensões subtis muitas vezes descuradas e vezes legitimadas. A violência sexual de base negocial constitui uma realidade hollywoodesca que grassa na nossa sociedade. A legitimação de uma relação serial, extraconjugais, é vista como estratégia de ascensão social, com usos e abusos de sexo, para se singrar na vida.
O problema é saber até quando se pode legitimar tais práticas numa sociedade que se quer moralizada…  

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

23 de novembro. No retiro



23 de novembro de 2008 marcou-me profundamente. Senti o peso de perder um pedaço de mim, um sorriso e um suspiro miudinho sempre que acordo pela manhã; A minha mãe, a figura guardiã da minha identidade. Hoje o silêncio e a saudades são tantas que resolvo me resguardar aqui no asilo.
Só penso na saudade, na profundidade de sentir no peito, os momentos mnemónicos de vários momentos passados juntos na família. Fragmentos de memórias que ficam, alimentando-me sempre que preciso as baterias. São ensinamentos ricos de valores, de atitudes, identidades; coisas que não nos vestem para parecermos bonitos no encontro social. Mas ensinamentos que constituem chaves que abrem muitas portas nas tramas da vida. O imaterial que salvaguarda o milagre que há em nós na criatividade e no sacrifício.
Com a minha mãe aprendi a dormir e a valorizar as coisas de forma tranquila. Ensinou-me a acertar, falhar, a errar, a criticar, construir e reconstruir; e não ter medo de nada porque o medo existe em nós. Se for preciso enfrentar um leão, a ninha mãe com certeza teria feito.
Vou-me retirar por hoje. Vou reflectir sobre os vários fragmentos… os passos andados e outros à construir. Sempre na tentativa e erro. Enquanto isso vou me recorrer ao objecto de memória que constitui a minha ferida simbólica.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Consciência negra: black voices & black life



Ontem, 20, comemorou-se dia de consciência negra; trata-se de um efeméride criado e celebrado no Brasil que aos poucos vem sendo celebrado um por pouco por todo lado. Zumbi dos Palmares é o patrono e homem que deu corpo ao movimento antiescravagista no Brasil; lutara contra o poder hegemónico instalado no país-continente para a liberdade dos negros da garra de exploração colonial através de mão-de-obra escrava.
Volvidos largos anos da abolição da escravatura, a sociedade brasileira jogara para a margem a cultura africana, apostando em artifícios, vezes subtis e outros manifestos. A negação de vários índices da cidadania, o trabalho e oportunidades em igualdade de circunstância, a acumulação de riqueza e a representação politica no quadro da multiculturalidade, constitui ingredientes de resistências muitas vezes mal compreendidos. Criou-se uma sociologia dos negros, dos escravos, com estereótipos, que não deixou margem de negociação no espaço público.
Hoje, temos um Brasil diferente. Um Brasil que está atento da sua riqueza multicultural, da capacidade dos seus recursos humanos para conquistar o continente africano. Um Brasil que tenta curar a ferida simbólica que constitui chaga para milhões dos afrodescendentes. E um Brasil, por ironia, país crioulo, hibrido como jacaré, que se disfarça facilmente como um camaleão no panorama global.